quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Uma hora temos que ir.

Eu continuo tendo sonhos que me dou conta.
De navios piratas e Caetano Veloso.
De pessoas apertadas no embrulho das coisas que as matarão.
De estar preso em um elevador que mergulha direto para o poço.
De um mar aberto e dos modos de vida que esquecemos.
Eu continuo tendo sonhos.

Ana trabalha em um restaurante indiano na Santo Antônio.
Voltei pra casa dela e dormi ao seu lado.
Ela acordou gritando no meio da noite,
Apavorada com o próprio interior.
Sonhos de navios piratas e Pink Floyd.
Rompendo com uma vida mais ensaiada.
Ela não consegue lembrar o que veio primeiro:
A casa, o lar ou a sede terrível.
Ela continua tendo sonhos.

E nos piores dias,
quando a vida parece pesar dez mil toneladas,
Ela pega a máquina fotográfica e as chaves do carro que ficam na cabeceira da cama.
Sempre há uma fuga.
Acordar, banho e em meia hora todos fomos.

Eu continuo tendo sonhos das coisas que tenho que fazer.
Acordando e não os seguindo.
Parecendo que nada dormi.
Acordo no silêncio dela encarando a parede.
Uma bússola antiga para escapar de um marinheiro.
Ela me diz como eu não posso continuar assim.
Fecho meus olhos e nada argumento.
Eu continuo tendo sonhos.

E nos piores dias,
quando a vida parece pesar dez mil toneladas,
eu durmo com o meu passaporte.
Um olho na porta dos fundos.
Para que eu possa sempre correr.
Eu acordo, tomo banho e em meia hora terei ido.

E com a manhã eu desapareço.
Apenas uma marca nos lençóis.
Já estou na estrada com o polegar para cima.
Um carro me levanta. É o Paul dirigindo.
Subo e não trocamos uma palavra.
Vamos em direção ao sol que cai.
Estes rios de asfalto são como artérias de todo país.
Somos glóbulos na corrente sanguínea.
Um coração batendo.
Pulsos elétricos.
Na passagem da sonâmbula alma brasileira.


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