quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Elefantes em nuvens

Quantas vezes eu te disse pra olhar nos meus olhos?

Veja, veja a corda que solta!

Nosso cheiro de despedida despe minha última peça de ser.
Por trás do teu sutien se esconde a sede cega em te carcar.

Não quero te machucar.
Não quero te fazer bem.
Não quero me encontrar.
Não quero saber mais quem,

Fui. Ou sou.
Espero realmente esquecer do que gostaria de te falar.
Vou apertar com força todas as partes do teu corpo.

É tu.
Sempre foi.
Hoje.
Tá sendo agora.
Sem pudor.
Sem parecer.

Bem vinda à minha torre: guarde meus porquês.





Nuvens de elefantes

Esfacelo o crânio de uma parte que fui.
Esqueço o pranto da tristeza que alimentei.
Nada pode parecer mais absurdo que deixar o próprio sol se por.
Nada é mais revigorante que renascer perante perdas.

Toda imagem que segui continua me seduzindo até a cova.
Petrufado por verdades adormecidas que não sei quando aceitei,
me entrego ao universo sem importar o desencanto.

Se minha alma quer falar,
quem sou eu para impedir?

Nada mais que uma imagem.
Uma simples e pura imagem de quem acredito dever ser.
Do que acredito querer alcançar.
Uma singela prisão auto imposta por quem sempre acreditei ser quem sou: eu mesmo.

Mas quem sou, se só imagens identifico?
Que imagens são essas com as quais flerto, assumo e persigo?
Perpetuando voltas em pró de algo que só me afasta de ser nós?

As vezes eu sento ao sol só sentindo a certeza de ser.
Na maioria, imponho afazeres desnecessários que alimentam a ilusão do ser Gustavo.
Uma pena não saber em quem descansar.
Uma sorte em poder procurar.

Se a busca é por atingir,
como posso deixar de ser alguém?

Sofrer por antecipação.
Afetar por parecer.
Seduzir por satisfazer.
Fingir por não amar.

Todos esses sentimentos que permeiam linhas invisíveis de identidade.
Essa pouca satisfação em atender a razão.
Porca vontade de atingir a referência: realizando que a referência pura é sempre sem dualidade.
Vazão se dá pra quem vem livre: presos apenas focamos em fazer,

Onde está meu ser puro?
Depois de atingir, ou antes de me dar conta?

Sintonias afinadas espantam uma crise inventada: elaboram certezas que não importam a veracidade.
Moças belas são apenas uma forma de flertar com o poder.
O poder é a busca cega pelo apego.
Cai a noite e ninguém mais tem pertence: então porque choramos as perdas?


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