domingo, 24 de novembro de 2013

A origem

           Como uma faca rasgando a carne, a explosão se intrometeu no meio do grande nada gerando o novo. Até então pequeno, o espaço vazio se dilatou numa velocidade absurda. Pedaços recém-criados foram arremessados pros cantos infinitamente expansíveis, levando consigo fragmentos da energia condensada. Ninguém sabe o que explodiu, mas há de se supor que tenha vindo de algum lugar. Não vem ao caso. Antes, a energia só existia em si. Agora viajava separada em todas as direções possíveis, forçando a pele do não mais nada. Até estabilizar, todos os resquícios se preparavam para um novo começo: evolução. Eu não saberia dizer do que eram feitos esses pedaços, os quais chamarei de astros. Também me falta a informação se mantiveram-se os mesmos. O que atesto é a suprema certeza de que inúmeros tipos de fragmentos foram criados, ficando cada um com um dever sem consciência. Da energia, todos são feitos. Cada um, porém, com uma peculiaridade diferente. Nem todos são fecundos, ouvi falar. Estes são o farelo universal. Aqueles com a possibilidade de interação são os que nos interessam.

            Acredito ser necessária uma breve apresentação da energia: ela é finita, mas se alimenta ao ressoar com o infinito. Possui caráter dualista, sendo necessário um equilíbrio para que brilhe no máximo. A explosão misturou a harmonia e agora cabe ao tempo fomentar o balanço. “Como?”, perguntam. Pois o próprio dualismo é a resposta. Se formos traduzir para o nosso entendimento, masculino e feminino seriam os melhores adjetivos para descrever. A energia é uma e contém em si dois comportamentos diferentes. Um fecunda e o outro gera. E assim o tempo faz sua parte, na espera da interação.

            Viajei por tudo e compreendi a imagem que me foi mostrada. Não sei explicar, porém. O mesmo processo ocorre concomitantemente “não vazio” afora. Pedaços femininos orbitam ao redor de pedaços masculinos, captando a energia que as preenche. Tudo se torna o mesmo, ocorrendo em erupções de líquidos específicos. Não existe cor, pois não há quem veja. Não há barulho, pois não tem que o escute. Diferentes tipos de influências recíprocas vão acontecendo. Há de se entender que o equilíbrio precisa estar presente em cada instância. Muita energia masculina queima o astro. Pouca energia masculina ocasiona numa maior espera ou num potencial de gestação nunca realizado.

            Gostaria que ficasse claro o fato de que uma probabilidade, digamos 1/5, ocorrer devido a outra probabilidade, 1/9 por exemplo, aumenta a possibilidade de um evento não ocorrer, 1/45. Aumentem os números do exemplo até que não saibam mais como contar e ainda assim estaremos longe de um quadro plausível. Se pudéssemos processar a lógica matemática para que um fragmento fértil consiga ser fecundado, voltaríamos para a origem. Antes do nada ser nada. O pensamento por aí começa. O dever encontra um propósito: Prosperar. Pois mostra-se propício. Por prosperar, porém, pondero. Não tem a ver com ganhar. Tem a ver com progredir da melhor maneira possível.

            Algo vem antes do nada, que deixa de ser nada na explosão. A explosão espalha e expande o espaço vazio. A possibilidade da interação acontece e a energia reencontra o equilíbrio numa nova forma que ela mesmo gesta.

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