sábado, 5 de outubro de 2013

Ligia

 - Não fumo o teu cigarro! - Ligia falou, largada na poltrona e ávida ao meu toque. Eu tinha recém ganhado a chave do apartamento - E por que tu demora tanto pra chegar em casa? Pensei que tu tivesse vindo morar aqui para passarmos mais tempo juntos.

 - Por que a maioria das mulheres não admitiria e tu admite? Qual o problema com os cigarros que fumo? - Perguntei.

 - Porque elas nunca admitem como é bom ser querida. E se eu começar a fumar teu cigarro tu tá dentro da minha vida de vez.

 - Então não te levanta, fica aí. Tá tão claro que tu tava esperando por mim que eu quero apreciar a cena mais um pouco.

Tento sempre ser direto com mulheres que converso.
Nem sempre consigo.

A Ligia tem um cabelo castanho que parece uma onda que se estende para trás até os ombros. O rosto é anguloso e fino é o traço da boca, uma boca sensual com uma precisão inflexível. Seu ar é feminino o suficiente, como se não tivesse consciência do baita corpo que tem. Ela mede tipo um e sessenta e cinco, com um contorno de torso que da a impressão de uma leve lordose: linda.

Essa relação foi uma maneira diferente de lidar:

O equilíbrio dos opostos levava sempre a um denominador comum: nunca brigamos, mas também nunca nos arrebatamos.


O apartamento que morávamos era pequeno: dois quartos e um banheiro do lado à cozinha americana. Na sala tinha um poof e as plantas que cultivávamos; dois banquinhos e uma grande janela com vista dividida entre o telhado do vizinho e um céu de sol poente era o palco da maior parte das nossas interações.

Uma vez num verão que não choveu com cerveja começou:
No calor a Ligia usa regatas: o ombro amostra me fez atacar.

Começamos nos pelar como quem tivesse esperando um ok mútuo.

A pele alva era de porcelana até o apertão que eu precisava dar: ali o tecido enrugava com a vontade em que eu ia ao pote.

No poof ao chão seminua ela pulou. A luz que adentra a janela entreaberta revelava um começo de quadril magro e lindo.
Na trilha da fresta clara eu percorria com a boca seca a silueta que meu foco fátuo permitia.

Todos os movimentos do amor são noturnos, mesmo quando praticados à luz do dia.

A boca seca arrepiava mais por parecer penas que sobem em uma espinha nua e tímida. O peito é o alvo da sede e sina de quem tem gãna: o sutien eu tirei na rapidez em que folho um livro que quero sentir o cheiro.

A concentração era tanta que o não permitido não foi considerado.
Quando queremos algo de verdade brincar com o que é sério passa despercebido: para uma amizade entre homem e mulher acontecer tem que haver uma tensão sexual.

Eu já disse que comecei pelas costas, tirando o fôlego pressionando leve a mão no peito.
Ela olhou pra cima falando alguma coisa: eu ainda não me acostumei a falar enquanto amo.

Mordi a orelha, mordi o pescoço: chamei de linda.
Percorri o corpo ali pra mim, pulando o exagero erógeno.

 - Eu adoro quando tu me faz não falar -  Da saia longa eu encontrei o fecho.

Abri com calma, deixando a mão cair para dentro: com saias longas não passeiam meias calças:
a simplicidade de subir um pano só me deixa louco.

Ali divaguei por coxas lisas; brinquei com a esquerda, impliquei com a direita; a fiz rir.

Senti o viço sexual pela jugular que salta quando ela se exalta. A pele quente pulsava exalando um aroma de que hoje sinto falta.

 - GUSTAVO! - Um grito anunciou um lampejo de consciência que nos fez parar.

Um terreno inexplorado nunca é íntimo o suficiente. Não importa a quantidade de laços e experiências que ganhamos ao longo de uma trilha.

Não fosse minha flatmate, eu iria além, sem me importar com o fato que nunca me comprometo com as expectativas alheias. Misturar as coisas é dar uma guinada caótica no destino. Numa poção de sentimentos, não somos nós quem decidimos o que é veneno e o que lisérgico.

Ela tava absorvida pela minha pupila negra dilatada. Tudo continuava igual e à minha mercê. Segurei a nuca e puxei os poucos fios de cabelo que consegui. Dei um último beijo antes de sentar à janela em busca de normalidade.

- Tá bom - disse inocente esfriando o clima de propósito.

Aguentei me fazer por mais duas semanas.
Não existe o cara ir morar com uma mulher e não acabar transando toda a hora.





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